Arredando (e arreliado por isso) há algumas semanas da blogosfera, foram vários os assuntos sobre os quais tive vontade de postar e que por falta de sitio não o fiz. As reflexões pessoais que os referidos assuntos suscitaram perderam o futuro que o registo escrito lhes garante.
Estando o Mundial 2010 em curso foram várias as metáforas em que já tropecei e que aqui gostava de registar.
Uma delas foi a forma com todos lidamos com este circus romano da actualidade que entretém e anestesia milhões de pessoas pelo mundo inteiro. No caso português (também no espanhol…) o Mundial funciona como a metadona. Não resolve, não compromete, mas alivia.
Fiz um comentário há dias no Albergue Espanhol sobre a metadona futebolística, que aqui passo a reproduzir.
"O dealer para ganhar a confiança do seu protegido teve apenas que dizer umas frases bonitas sobre um prazer infinito e duradouro. As primeiras experiências correram bem, muito bem. Durante essas experiências o dealer mostrou ao futuro junkie que na sua companhia no futuro poderia ser muito feliz, teria dinheiro nos bolsos e viveria a alta velocidade.
Por vezes nos curtos períodos em que não estava sobre efeito do encantamento, o futuro junkie ouvia algumas vozes (sempre pelo seu ouvido direito) que garantiam que a conversa do dealer era perigosa e que este o levaria à ruína. Como é que isso era possível? Quando chegava à hora da diversão o dealer tinha sempre dinheiro para as farras. Ele sabia como fazer as coisas. Com ele havia sempre boa disposição e os seus amigos estavam sempre descansados pois não havia azar que os apoquentasse.
E foi neste clima que as doses de encantamento se foram sucedendo e com o correr do tempo já nem se lembrava da sua vida antes de conhecer o seu dealer, o grande dealer.
No entanto, o seu ouvido direito não deixava de o perturbar. As doses de encantamento começavam a ser insuficientes. O grande dealer, sempre atento aos estados de espírito do seu junkie, repetia ininterruptamente as suas mensagem de entusiasmo e boa disposição. Apesar disso, por vezes irritava-se com tanto alerta, e o junkie suspeitou estar a ser agredido, directamente no seu ouvido direito durante o sono. Desconfiou do dealer e perguntou-lhe se sabia alguma coisa sobre o assunto. Ele logo mostrou que tinha um feitio forte e que não aceitava que desconfiassem do seu optimismo. O junkie logo entendeu que o melhor era não lhe contar mais nada sobre as vozes estranhas.
Um dia o grande dealer juntou muitos amigos e deu uma festa espectacular. Todos estavam entusiasmados e no fim fizeram um brinde. O grande dealer estava inflamadíssimo e encantado consigo próprio. Sem contar com o microfone aberto disse para consigo: Porreiro, pá! A expressão chegou em alto som às colunas de som (compradas a prestações) e a gargalhada foi geral. Todos estavam encantados com ele, e ele adorava ser o centro das atenções.
No entanto, alguns dos amigos do dealer começaram a avisar o junkie que a vida que levada, sem esforço e só com facilidades, era perigosa e que a prazo teria de mudar de trajectória. O dealer quando soube disso juntou, os amigos e o junkie e começou a falar, falar, falar. No final do encontro todos tinham ouvido algumas ideias com que concordavam e outras não. Ninguém notou que, o que ele fazia era apenas dizer uma coisa e o seu contrário para dois públicos em simultâneo, e logo de imediato, dizer o seu contrário e uma coisa de forma a que todos encontravam alguns pontos de ligação. Ninguém notou que todos estavam a ser anulados num jogo de dupla negação.
O encantamento começou a criar habituação e o junkie começou pedir mais coisas além de conversa. O dealer para o acalmar começou a andar com mais notas nos bolsos. Sabia bem que isso funcionava com alguém como o seu protegido, que toda a vida tivera de contar os tostões.
O junkie no entanto começava a ficar cansado de tanto encantamento.
Um dia, os dois encontraram-se numa mesa de café. O dealer estava diferente. Ao contrário do habitual não se mostrava entusiasmado. Disse-lhe que o mundo tinha mudado e que agora não lhe poderia dar mais dinheiro. O junkei tentou saber porquê e, apesar do seu dealer nunca o assumir, entendeu que ele andara a pedir dinheiro emprestado para toda aquela estúrdia e que já ninguém lhe emprestava mais. O dealer tentando justificar-se disse que iria arranjar mais dinheiro, fosse como fosse, desse por onde desse. Nesse momento o junkie, que cada vez mais se sentia deprimido e esmagado pelas vozes que desde o início o tinham avisado do frenesim gastador em que estava a viver, sentiu que as pernas lhe tremiam notou que transpirava abundantemente. O mau estar era geral. Como é que tinha embarcado num conto do vigário?
Perguntou ao dealer se havia alguma forma de ultrapassar aquela situação com dores menos intensas?
O dealer sorriu e disse: Este ano o campeonato mundial da metadona é na África do Sul!!
Ao dizer isto viu que torcia os dedos para que as actuais tormentas virassem boa esperança…
Para que a metadona funcionasse tínhamos de ganhar os jogos!!
Ao fundo ouviam-se vuvuzelas."