terça-feira, 30 de agosto de 2011

Recortes da blogosfera

Dois meses depois, não há reformas, dizem eles - os que nunca reformaram nada ou estiveram sempre na primeira linha do combate a todas as reformas no aparelho de estado. Dois meses depois, não há cortes na despesa, dizem eles - os que sempre contribuiram para avolumar a despesa.


Eis que surge o primeiro corte substancial na despesa, com a fusão de dois institutos públicos que permite poupar 14 milhões de euros, e os mesmos recomendam agora que se trave a fundo. "Estas fusões não se anunciam sem estar bem estudadas e sem haver um cronograma", brada um. "Não há razões para queimar etapas. As questões devem ser profundamente debatidas", proclama outro.


Os mesmos de antes, os mesmos de sempre. Por isso é que o País está como está.


 


Pedro Correia, Delito de Opinião

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Recortes da imprensa

«Uma das coisas mais interessantes desta crise é a de verificarmos semelhanças entre os países do Sul da Europa, nomeadamente entre nós, Espanha, Itália e Grécia. A história do mundo ocidental que hoje conhecemos assenta em boa parte no que foi gerado nestes quatro países em termos de cultura, história, equilíbrio entre o homem e a natureza, e o grande prazer de viver com o Sol, os sabores gastronómicos riquíssimos, as praias, a paisagem. Se nos tivermos de virar para algum lado, parece claro que a nossa herança genética está aqui.


E este pode ser o nosso plano B. Talvez tenhamos de construir um destes dias a tal Europa do Sul com italianos, gregos e espanhóis a fazerem-nos companhia. Será mais pobre mas pode incluir uma moeda para os quatro, ter França como uma zona de passagem neutra, talvez incluir os países dos Balcãs como novos mercados. E nós, os do Mediterrâneo europeu, não metemos medo aos turcos, aos marroquinos, aos egípcios, etc.. Não somos a Europa xenófoba.


Estamos numa luta contra o tempo e no nosso sangue não corre a geometria decimal com que a troika nos obriga a vender tudo como se não houvesse no fundo da nossa memória esta questão: quase mil anos como nação independente. Sim, é essencial tornar o país menos dependente do financiamento externo e pôr as contas em ordem. Mas que países do Norte da Europa nos vão perdoar, mesmo depois de termos feito tudo, e não for suficiente? Não tenhamos ilusões: quem trata mal os gregos, vai-nos tratar mal a nós.»


Daniel Deusdado, no Jornal de Notícias

domingo, 21 de agosto de 2011

Recortes da blogosfera

Um grupo de manifestantes que protestasse nas ruas de Madrid ou de qualquer outra capital europeia contra a visita de um dirigente espiritual islâmico seria logo rotulado de "antimuçulmano". Os participantes nessa manifestação ganhariam de imediato o epíteto de "islamófobos" e não faltaria quem sublinhasse a necessidade de combater ódios religiosos em nome da liberdade de crença e do respeito pela fé alheia.


Tudo muda quando esse dirigente espiritual é o Papa. Os manifestantes passam a ser "laicos", nenhum deles é descrito como anticatólico e muito menos como vaticanófobo. Os gritos de "Papa nazi", "assassinos", "ignorantes", "pedófilos" e "filhos da puta" com que nestes dias alguns destes "laicos" têm brindado centenas de milhares de jovens católicos inserem-se na naturalíssima liberdade de manifestação que justifica aplauso dos mesmos que se indignariam com uma ruidosa reunião de "islamófobos".


Isto deve fazer-nos reflectir sobre a importância das palavras no espaço comunicacional. Nenhuma delas é neutra, nenhuma delas é irrelevante: todas nos chegam carregadas de ideologia. Compete ao bom jornalismo evitar as armadilhas da linguagem que estabelecem dois pesos e duas medidas para situações similares. Porque o preconceito ataca quando menos se espera. Sobretudo o preconceito daqueles que se proclamam livres de preconceitos.


 


Pedro Correia, Delito de Opinião

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Recortes da blogosfera

Há quase quatro anos que o liberalismo foi julgado, culpado e anunciado em extinção, apesar da crise ter sido causada em boa parte pelo socialismo europeu e seus congéneres americanos que, com a ajuda dos bancos, despejaram dinheiro sobre o povo como se não houvesse amanhã. Hoje, os mesmos arautos anunciam, alto e bom som o fim do capitalismo, um thinking da canga revolucionária pseudointelectual dominante.


Eles não aprendem. O fim do capitalismo é um pouco como o fim do mundo: estão condenados a acabar ao mesmo tempo. Porque o capitalismo é intrinsecamente humano, inseparável da liberdade, condição essencial da sobrevivência da espécie. Acontece que o homem, e por inerência o capitalismo são senhores duma extraordinária resiliência: adaptam-se para sobreviver. O mundo não acaba amanhã: por muito que nos custe, temos é muito que padecer e batalhar. É a nossa condição.


 


João Távora, Corta-fitas

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Escumalha


 


Vão surgindo pelo mundo ocidental, organizações que pretendem ser tratadas como partidos políticos, que defendem a pirataria informática, seja de música, filmes, software, etc.


Organizações como estas merecem a simpatia de muitos internautas, especialmente jovens. A facilidade do delito estimula-o, banaliza-o e quase o legitima.


O respeito pela propriedade foi instituído na era moderna, e partir de então reconheceu-se ao indivíduo a possibilidade de decidir sobre o que é seu, sem necessitar de qualquer autorização senhorial ou outra que seja. Esse é um dos pilares da era em que nasci e cresci, e continuo a identificar-me com ele e a reconhecer-lhe todo o sentido, e é exactamente esse pilar que é questionado quando se encolhe os ombros perante os downloads ilegais. 


O mesmo está a acontecer em Inglaterra, onde hordas de… vá lá, ladrões, aproveitam a 'insatisfação' (estarão como o Mick Jagger quando se queixa de não a obter), para roubar deixando um rasto de destruição. Os estragos em habitações e espaços comerciais ascende a muitos milhões de libras.


Há uns anos Sarkozy chamou 'escumalha' a grupos idênticos, deixando indignada a esquerda alegre que, desde que os carros destruídos não fossem os seus, achava que os coitados estavam apenas a manifestar a tal 'insatisfação'.


Mas o actual presidente francês foi feliz na expressão, é mesmo disso que se trata. Escumalha.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Os inimigos do futuro

De entre os seres vivos, o humano é o único que sabe que há futuro. Se nos preocupamos é porque sabemos que o futuro existe, e que pode ser melhor ou pior, dependendo em certa medida de nós próprios.


A relação individual com o futuro repete-se, a uma escala alargada, com as sociedades.


Na sociedade do consumo imediato em que vivemos, a incerteza do amanhã é esmagada pelo imediatismo de curta perspectiva, que se verifica nas decisões individuais e colectivas.


O colonialismo territorial de outros tempos foi assim substítuido por um colonialismo do presente que absorve e parasita o tempo futuro. O benefício que, no passado, se pretendeu usufruiu sobre os ‘de fora’, é exercido hoje sobre os ‘de depois’.


Os ataques do presente, seja sob a forma de endividamento ou de poluição, desrespeitam os ‘agoras’ dos outros e fazem do futuro uma lixeira do presente.


Jefferson, no séc XIX, questionou-se se não se deveriam aprovar todas as leis ao ritmo das gerações e considerava que cada geração era como uma nação diferente e tinha, por isso, o direito de tomar decisões, sem no entanto poder obrigar as seguintes.


Cada vez que os responsáveis políticos endividam as suas comunidades ou os seus países a prazo alargado, para concretizar obras não produtivas comportam-se como uns okupas do futuro. Entre a liberdade de acção das gerações futuras e o fascinio imediatista da inauguração com uma placa com o seu nome gravado, os políticos preferem, sem pudor, a segunda.


E os eleitores apaludem, porque o futuro é dos outros e o presente é deles próprios.


A crescente dimensão do grupo de eleitores de terceira idade dentro do universo eleitoral alimenta também este processo. Antecipar uma reforma é sobrecarregar um sistema que não sabemos se será sustentável no futuro, mas, perante os abusos descabidos todos encolhemos os ombros. Quem não faria o mesmo? Exigir aumentos das reformas é normal, pois tem de se acompanhar o aumento do custo de vida. Quanto ao futuro ... logo se vê.


Se nada for feito para interromper esta lógica, desprovida de ética, o futuro terá cada vez menos peso político.


A ideia da responsabilidade está essencialmente virada para o passado. Temos de prestar contas pelo que fizemos ou deixamos de fazer, mas quanto às responsabilidades futuras, essas ... são sempre envolvidas na incerteza do amanhã desconhecido.


Mas um dia o futuro será presente, e os dos futuro, aprisionados pela vaidade dos do passado, saberão identificar os seus tiranos e dar-lhe o devido lugar na memória que será a deles e que é a memória futura.


 


Para uma visão mais profunda e alargada sobre este tema, recomendo a leitura do livro ‘O Futuro e os seus inimigos’ de Daniel Innerarity


 


Publicado no Portomosense, 03 de Agosto de 2011

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Mensagens da tragédia norueguesa

Muito já foi dito e escrito sobre o massacre de um psicopata na Noruega, mas registo dois momentos da terrível novela que se encontra em fim de ciclo.


O primeiro prende-se com a primeira explicação avançada pela imprensa. A imaginação de alguns jornalistas noticiou que o atentado se devia ao envolvimento norueguês na Guerra do Afeganistão. A lógica é simples e linear, quem se mete com o islão leva. Nas entrelinhas deste raciocínio, apenas para quem o quiser ler, pode encontrar-se uma legitimação para o sempre ilegítimo terrorismo. É uma imagem dos media que supostamente nos servem. No seu melhor.


O segundo registo, mas com destaque, foi a elevação com que as autoridades norueguesas lidaram com a tragédia. Uma semana após o atentado Jens Stoltenberg, o primeiro-ministro quis assinalar a data escolhendo para o ponto alto da cerimónia a maior mesquita de Oslo. Ali discursou sobre democracia, multiculturalidade e tolerância. Dessa forma mostrou-nos aquilo que já sabemos, e que é: esses três conceitos são a resposta civilizada para o que já todos assumimos com um facto e que é o chamado choque de civilizações.


A escolha entre a barbárie e a civilização cabe-nos a nós.

Frei Bartolomeu de Las Casas e não só

Graças a uma aula on-line de Miguel Morgado , tomei há pouco tempo conhecimento de uma figura histórica da qual tinha ouvido vagamente o se...