quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Os inimigos do futuro

De entre os seres vivos, o humano é o único que sabe que há futuro. Se nos preocupamos é porque sabemos que o futuro existe, e que pode ser melhor ou pior, dependendo em certa medida de nós próprios.


A relação individual com o futuro repete-se, a uma escala alargada, com as sociedades.


Na sociedade do consumo imediato em que vivemos, a incerteza do amanhã é esmagada pelo imediatismo de curta perspectiva, que se verifica nas decisões individuais e colectivas.


O colonialismo territorial de outros tempos foi assim substítuido por um colonialismo do presente que absorve e parasita o tempo futuro. O benefício que, no passado, se pretendeu usufruiu sobre os ‘de fora’, é exercido hoje sobre os ‘de depois’.


Os ataques do presente, seja sob a forma de endividamento ou de poluição, desrespeitam os ‘agoras’ dos outros e fazem do futuro uma lixeira do presente.


Jefferson, no séc XIX, questionou-se se não se deveriam aprovar todas as leis ao ritmo das gerações e considerava que cada geração era como uma nação diferente e tinha, por isso, o direito de tomar decisões, sem no entanto poder obrigar as seguintes.


Cada vez que os responsáveis políticos endividam as suas comunidades ou os seus países a prazo alargado, para concretizar obras não produtivas comportam-se como uns okupas do futuro. Entre a liberdade de acção das gerações futuras e o fascinio imediatista da inauguração com uma placa com o seu nome gravado, os políticos preferem, sem pudor, a segunda.


E os eleitores apaludem, porque o futuro é dos outros e o presente é deles próprios.


A crescente dimensão do grupo de eleitores de terceira idade dentro do universo eleitoral alimenta também este processo. Antecipar uma reforma é sobrecarregar um sistema que não sabemos se será sustentável no futuro, mas, perante os abusos descabidos todos encolhemos os ombros. Quem não faria o mesmo? Exigir aumentos das reformas é normal, pois tem de se acompanhar o aumento do custo de vida. Quanto ao futuro ... logo se vê.


Se nada for feito para interromper esta lógica, desprovida de ética, o futuro terá cada vez menos peso político.


A ideia da responsabilidade está essencialmente virada para o passado. Temos de prestar contas pelo que fizemos ou deixamos de fazer, mas quanto às responsabilidades futuras, essas ... são sempre envolvidas na incerteza do amanhã desconhecido.


Mas um dia o futuro será presente, e os dos futuro, aprisionados pela vaidade dos do passado, saberão identificar os seus tiranos e dar-lhe o devido lugar na memória que será a deles e que é a memória futura.


 


Para uma visão mais profunda e alargada sobre este tema, recomendo a leitura do livro ‘O Futuro e os seus inimigos’ de Daniel Innerarity


 


Publicado no Portomosense, 03 de Agosto de 2011

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