sexta-feira, 25 de junho de 2010

Post zero

“O desejo de evasão sempre levou os homens a trocar o conforto da segurança pela sensação-limite de enfrentar o estranho e o imprevisível, como se da passagem por territórios desconhecidos pudesse chegar uma sorte de revelação sobre o seu lugar no mundo. [...] Na verdade, não importa tanto se à nossa frente está o Templo de Karnak em Luxor, os desfiladeiros do Grande Canyon ou os fiordes da Noruega. Todos os lugares são sugestões explícitas de comunicação, varia a linguagem do nosso registo – verbal ou não verbal, manifesta ou silenciosa, partilhável ou solitária. Varia, sobretudo da disponibilidade do olhar: curioso, enfastiado, inquieto, apaixonado, demorado, descrente, superficial, humilde, rotineiro, arrogante, apressado, respeitoso... Diz-me como olhas o mundo, dir-te-ei que mundo é o teu.


 


Cresceram exponencialmente as possibilidades de viajar, mas a exaltação à aventura é uma ideia cada vez mais remota. Tudo se oferece acondicionado e espartilhado em embrulhos turísticos, calculados para se adaptarem o melhor possível aos nosso hábitos e estilos de vida, quando faria mais sentido estimular a ruptura e provocar a aprendizagem e descoberta do inadquirido.


 


Uma das diferenças entre o turista e o viajante “é que o primeiro aceita a sua própria civilização sem questioná-la, enquanto o viajante, ao compará-la com as outras civilizações, rejeita aquilo de que não gosta”. [...]


 


Só um espírito empedernido em tédio e cepticismo pode ficar indiferente ao sobressalto feliz de uma viagem, ao deslumbramento e à sabedoria que daí pode advir. Subtraídos à banalidade e lançados para um registo vivencial único, que relativiza as nossas concepções pessoais de tempo e espaço, somos invadidos por uma consciência aguda e perspicaz da dimensão do real, da sua infinita diversidade e complexidade. Não é raro que viajar produza um estado de aclaramento mental de consciências mais duradouras do que à partida julgaríamos. [...] Tal como das grandes paixões, ninguém regressa intacto de uma grande viagem, desde que reserve ao seu lado um lugar para o acaso. “O acaso é Deus quando viaja incógnito”, disse Plutarco.”


 


In Notícias Magazine, 25/01/98

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